Tecer, da distância, o encontro

Se mediar leituras e narrar histórias se fundamentam no encontro, como trazer essa experiência para tempos de distanciamento?


A literatura, seja por meio da mediação de leitura ou da narração de histórias, não nos parecia ser um caminho possível de ser percorrido fora do espaço precioso da presença, da história que se conta com o olhar, através dos gestos e de tantos não ditos. Afetos.


Mas, se durante uma pandemia como essa que vivemos o assombro de experimentar, a presença física não é segura, a ideia de nos encontrarmos virtualmente parece o caminho possível para manter, aquecer vínculos já desenhados, assim como tecer novos.


Temos pensado muito sobre como estão sendo formadas as subjetividades das crianças durante a pandemia. O medo do presente, a incerteza do futuro, a presença do imponderável de forma tão contundente. Tempos de crises financeiras, desemprego, medo, saudades. Ficar longe da escola. Amigues. Professoras. Uma quebra grande na rotina, e em alguns casos, o aumento de situações de violências domésticas em seus mais diversos formatos, passando a habitar as experiências cotidianas.


Nos vemos, então, por um lado acompanhadas de uma grande preocupação, e por outro, acompanhadas por uma importante ferramenta de acolhimento. Temos conosco a força das histórias compartilhadas. A potência da literatura e das narrativas de tradição oral na construção de subjetividades, de ampliação de leituras de mundo, de construção de espaços internos de elaboração de emoções, medos, sonhos, desejos, angústias.


A pandemia não deixará nosso Baú de Histórias fechado. Depois de um tempo, organizando nossa casa quarentenada, estudando o acervo, equilibrando desejos e possibilidades, estamos voltando.


A saudade dos meninos e meninas, olhos arregalados, bocas abertas, corpos ocupando almofadas, tapetes, segue apertando o peito. Mas, livros, afinal, são pontes, não são?


Das infinitas perguntas vindas de mediadoras comprometidas e apaixonadas, “o que fazer com os vínculos que vêm sendo construídos?;” “como fazer os livros chegarem até as crianças?”; “como manter a presença na distância?”, foram nascendo algumas respostas.


Agora é o frio na barriga, definição de um repertório adequado para esse momento, discussões sobre tamanho dos vídeos, edição, planejamento e produção de conteúdos. Cada mediadora, alimentada pelos sorrisos que estão construíndo saudades nelas, vai tecendo pequenos vídeos , mosaicos do caleidoscópio de uma história comum que vem sendo narrada, com essa turma de crianças, há mais de dois anos.


Fizemos a escolha de iniciar a experimentação de narrar essas histórias no formato de vídeos com uma de nossas escolas parceiras, justamente aquela em que estamos já com 3 anos de parceria com o projeto, a E.M.Crianças de Cotia II.


Os vídeos chegarão para as crianças através dos grupos de whatsapp que as

professoras, nossas queridas parceiras, montaram para manter contato com as famílias e responsáveis pelas crianças.


Aproveitamos para agradecer imensamente a toda a equipe da escola. Essa parceria preciosa, com essas pessoas que nos fazem sempre nos sentir em casa. Mesmo agora, a distância, essa parceria é um abraço.


Agora, as páginas dos livros viram aviõezinhos de papel, saem das casas das mediadoras, e percorrem os céus de Cotia, carregando livros, histórias, saudades, ab

raços apertados, sonhando encontrar aqueles olhos brilhantes que habitam o Parque Miguel Mirizola. Cami Oliveira, coordenadora do Projeto Baú de histórias.

Assista aqui, o vídeo que anuncia para as crianças o nosso retorno:


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