Tem que gostar de gente!

Por que o “Instituto ComViver” se entendeu tão rápido com a “Comitiva do Bem”?

Prof. Daniel Brito

Depois de cozinhar e porcionar 234 marmitas, mais o almoço de quase vinte voluntários, separar roupas para doação, receber a turma do ComViver em sua cozinha de campanha, eis que a Duca desabafa: “-Tem de gostar de gente, quem não gosta de gente, não aguenta este trabalho. Tem gente que gosta de bicho, tudo bem, mas eu gosto de gente!”. Eu também, Duca, eu também gosto de gente.

A Vânia trabalha emocionada, chora quando recebe doações que serão distribuídas para quem precisa. Para ela, nunca faltou comida, afinal, ela doa, ela reparte, e nunca falta nada para quem reparte, ela sabe disso. Ela conhece muita gente que tá passando fome, ali ao lado… na região do Mirizola, em Cotia-SP e se questiona “ -Se não fosse pelo trabalho voluntário eu estaria fazendo o quê? Quando a gente sai não é só comida que a gente entrega. A gente olha no olho das pessoas, entrega a comida e as roupas com carinho e, depois de um dia inteiro cozinhando em pé e batendo perna nas comunidades, volto para casa mais feliz. Se não fosse esse trabalho ficaria sentada no sofá vendo bobagem na televisão? Não quero!” Eu também não quero, Vânia.

Com a pandemia de Covid-19 e os impactos econômicos sofridos pela comunidade, a Cida, que trabalha mais de 50h por semana, como merendeira em uma escola particular, viu suas colegas perderem o emprego e ficou mal… com a pandemia ela ficou estressada com o sofrimento dos outros. Ajudar as pessoas, segundo ela, a salvou. Foi no trabalho voluntário que ela encontrou sentido para fazer algo com amor, dedicação e capricho. Eu também, Cida, trabalhar em meio a essa crise, apostando na construção de um mundo mais justo e solidário, é o quê me tira da cama e dá sentido para meu viver.

Ajudar quem mais precisa não é uma opção para as mulheres da Comitiva do Bem, é vital. A Duca, cozinheira e desempregada, diz que tava mal e sofrendo com a desgraça alheia, nos piores momentos, muito estressada, ela sentava, desesperava-se e chorava… com o projeto ela encontrou uma forma de organizar suas forças. A ação, apesar de grande, imensa, não resolve os problemas de todo o mundo. Então ela senta, chora, renova suas esperanças e cozinha. Você tem todo o meu respeito e admiração, Duca.

Os homens da Comitiva do Bem - o Yuri, o Valentim e o Rubens, se apresentam como “coringas”, o que precisar fazer, eles fazem! Todos eles sabem que o certo é obedecer essas mulheres, fazer o que elas pedem sem questionar, afinal, segundo o Valentim, marido da Vânia, “- Quem sabe das coisas são elas, se quiser alguma coisa, fale com elas!”. Eu falo, Valentin, e compartilho contigo a honra de saber obedecê-las.

A jovem Renata, criada na comunidade, recém formada em publicidade e em busca do primeiro emprego na área, fez o logotipo da Comitiva do Bem, ficou lindo! A marca retrata mulheres que trabalham em festa, acolhidas pela mão celestial, com pratos que se confundem com auréolas girando ao redor. Não foi à toa que a comunidade foi unânime ao escolher seu trabalho como o ícone de sua identidade. Renata, eu também votaria na sua proposta.

A Jamile é lembrada por seus pais (Vânia e Valentim) como o “maior tesouro que a vida lhes deu”, relata que faz campanhas de doação com a família desde quando se entende por gente, com sua voz firme e consciente, nos lembra que os beneficiários são ajudados, mas que quem ajuda, também recebe. Seu olhar crítico protege a comunidade com uma política de lisura e honestidade. Tem todo o meu respeito.

A Janaína é a vice-diretora de uma escola pública na região do Jd. Lavapés, em Cotia-SP, com 425 crianças matriculadas. Sua mãe trabalhou como doméstica a vida toda e seu pai foi funcionário público. Comemora que nunca lhe faltou nada e lembra das crianças beneficiadas com o projeto, são centenas, talvez milhares! Ela é quem energiza a turma com a força divina de sua oração e a potẽncia de sua voz antes da Comitiva sair para distribuir as marmitas A gente também se preocupa com as crianças, Janaína.

A jovem Ana não acreditava na continuidade do projeto, achou que seria uma ação pontual, de um dia só… mas quando foi às ruas e conheceu as pessoas assistidas, ficou chocada com a miséria que encontrou. Foi com o trabalho voluntário que ela aprendeu a valorizar que nunca passou fome, que sempre tem um arroz, um feijão e um ovo para comer. Hoje, não tem dia que ela mais espera na semana que o sábado, não tem nada que lhe motive mais que fazer esse trabalho. Eu também fico chocado ao me deparar com a miséria, Ana, é como um banho de humildade.

Essas falas foram enunciadas na primeira reunião mais formal entre as mulheres da Comitiva do Bem e os colaboradores e voluntários do Instituto ComViver. Até então, nossos encontros sempre se deram ao sabor frenético da urgência. Nessa reunião, que ocorreu dia 18 de julho, após um dia inteiro de trabalho, pudemos nos escutar em um ambiente mais coletivo. Enquanto a turma saiu para a entrega, a Cida ainda tinha forças para fazer uma fornada de sequilhos, um bolo gelado de coco e uma garrafa de café.

Quando a Roberta, voluntária do Instituto ComViver, que faz as compras dos alimentos e as entrega toda a semana, que orçou e comprou o fogão que emprestamos, que ajuda a montar as marmitas e sobe morro para entregá-las, se apresentou, confessou ter a sensação de que conhece as mulheres da Comitiva do Bem há muito tempo. Também acho, Roberta, também acho.

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